Estudo aponta a elastina como peça esquecida do folículo capilar, e os próprios autores dizem que falta prova clínica
Um estudo publicado no Journal of Cosmetic Dermatology testou uma mistura de seis ativos em folículos capilares humanos cultivados fora do corpo. A combinação aumentou o depósito de elastina em quatro compartimentos do folículo, prolongou a fase de crescimento do fio e elevou a atividade da papila dérmica. A conclusão do próprio artigo é que ainda faltam estudos clínicos de uso tópico.
Pesquisadores da QIMA Life Sciences, em trabalho com a empresa NULASTIN, publicaram no Journal of Cosmetic Dermatology um estudo sobre um alvo pouco explorado no cabelo: a elastina. A proteína é conhecida pela elasticidade da pele, e o artigo mostra que ela também forma uma rede em torno de compartimentos importantes do folículo capilar.
O modelo foi ex vivo. Os pesquisadores microdissecaram folículos humanos em fase anágena VI, retirados de couro cabeludo de doadores saudáveis, e os mantiveram em cultura. Cada grupo recebeu o veículo, que serviu de controle, a mistura em teste, ou isopropil cloprostenato, um análogo de prostaglandina usado em cosmético para crescimento de cílios, que entrou como comparador.
A mistura testada tem seis componentes: tropoelastina, palmitoil hexapeptídeo-12, extrato do fruto da Aronia melanocarpa, extrato do fruto da Momordica charantia, uma combinação de frutooligossacarídeo com extrato de beterraba, e fator de crescimento de hepatócitos.
Os resultados relatados: aumento significativo do depósito de elastina em quatro compartimentos do folículo, prolongamento significativo da fase anágena, que é a fase de crescimento do fio, aumento significativo da proliferação dos queratinócitos da matriz capilar e aumento significativo da atividade de fosfatase alcalina na papila dérmica, um marcador da capacidade da papila de induzir crescimento.
O artigo encerra com a ressalva que interessa a quem vende: são necessários estudos clínicos para confirmar a eficácia da mistura sobre o crescimento capilar em condições de uso tópico.
Por que isso importa
Folículo cultivado em laboratório não tem circulação, não tem hormônio, não tem estresse e não tem a cliente esquecendo de aplicar. É um modelo bom para entender mecanismo e ruim para prever resultado. Prolongar a fase anágena numa placa é indício de caminho, não promessa de fio novo.
Vale registrar também o comparador escolhido. O isopropil cloprostenato é um ativo de cílios que já circula em cosmético, e usá-lo como referência posiciona o estudo dentro do território cosmético, não do medicamento.
O que muda no seu negócio
Este é o tipo de estudo que chega até você pelo argumento de venda do representante, geralmente sem a expressão "ex vivo" e quase sempre sem a última frase do artigo. Quando um fornecedor apresentar ativo com resultado de crescimento capilar, a pergunta que separa uma coisa da outra é curta: foi testado em pessoa ou em cultura?
✦ O que você leva daqui
- Para quem consome: resultado obtido em folículo cultivado em laboratório não equivale a resultado no seu couro cabeludo. Antes de trocar de produto, pergunte se existe estudo feito em pessoas.
- Para o dono de negócio: peça ao fornecedor o artigo, não o folder. Procure duas informações: se o teste foi in vitro, ex vivo ou clínico, e qual foi o comparador usado.
- Para o dono de negócio: escreva a promessa do seu serviço de queda no nível da prova que você tem. Prometer redução de queda é uma coisa, prometer fio novo é outra, e é ela que volta como reclamação.
Moral da história: Ex vivo não é cliente: enquanto o estudo não sair da placa para a cabeça de alguém, o resultado que você pode prometer na cadeira continua sendo zero.